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Rosangela Perez / Instagram: @psicologarosangelaperez

Espaço destinado para provocar as mais variadas reflexões e inquietações sobre diversos temas do nosso cotidiano. Espero que contribua e o(a) estimule a transformar sua realidade. Meu site: www.psicologarosangelaperez.com.br

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01.09.25

PERSPECTIVAS PARA O FUTURO: ENTRE GRADES E HORIZONTES


sempreemfrente

 

       Vivemos tempos em que o concreto das grades parece mais real do que o abstrato da esperança. Cercados por muros, cercas elétricas e sistemas de vigilância, assistimos à ascensão de uma sociedade que, ao tentar proteger-se, revela sua própria fragilidade. A segurança tornou-se mercadoria, e o medo, moeda corrente. Nesse contexto, pensar o futuro com esperança pode soar como ingenuidade — ou como resistência.

 

      Mas seria a esperança uma utopia? Ou seria ela, como propõe o humanismo, uma expressão legítima da dignidade humana, que insiste em afirmar a possibilidade de sentido mesmo diante do absurdo?

 

     A utopia, nesse sentido, não é apenas um projeto político ou social. É uma projeção do desejo humano de transcendência, uma resposta à angústia existencial que nos habita. Ela nasce do confronto entre o que é e o que poderia ser. E embora não se realize plenamente, sua função é ética: ela nos convoca à ação, à responsabilidade, à construção de um mundo mais justo — mesmo que imperfeito.

 

        Por outro lado, há quem veja na utopia uma forma de evasão, um refúgio idealizado que nos exime do enfrentamento da realidade. Seria essa fuga uma negação da liberdade? Sartre nos lembra que estamos condenados à liberdade — e, portanto, à responsabilidade. Fugir da realidade em nome de um mundo perfeito seria abdicar da própria condição humana, que é projeto, escolha e ação.

 

       A distopia, por sua vez, emerge como o espelho sombrio da utopia. Ela não nega o futuro, mas o denuncia. Revela o colapso das promessas modernas, a falência das instituições, a crueldade de uma sociedade que consome, descarta e naturaliza a violência. A distopia não é apenas crítica: é alerta. Ela nos obriga a olhar para o que somos, para o que fazemos com o que temos — e para o que deixamos de fazer.

 

      Entre utopia e distopia, o ser humano se encontra em tensão. Essa tensão é fecunda, pois nos obriga a pensar, a escolher, a agir. O existencialismo nos ensina que não há essência prévia: somos aquilo que fazemos de nós. E nesse fazer, podemos tanto reproduzir o caos quanto instaurar o sentido.

 

       Desafiar normas e práticas que perpetuam o sofrimento exige coragem — a coragem de ser, como diria Paul Tillich. Exige também lucidez: não podemos nos alienar em visões idealizadas que nos afastem da realidade, tampouco nos resignar diante do absurdo. Precisamos habitar o entre: entre o sonho e o concreto, entre o desejo e o limite, entre o mundo que temos e o mundo que queremos.

 

       A esperança, então, não é utopia ingênua, mas ato de resistência. É o gesto humano que, mesmo cercado por grades, insiste em olhar para o horizonte.