TRASFIGURAÇÃO
sempreemfrente
Vivemos tempos em que a escuta se tornou um gesto raro e precioso. Cada vez mais, percebo o quanto as pessoas expressam o desejo profundo de serem ouvidas com atenção plena, de terem suas histórias acolhidas com respeito e presença. Talvez isso se relacione à forma acelerada e virtualizada com que passamos a nos conectar. A promessa de mais tempo livre e encontros significativos foi substituída por rotinas sobrecarregadas, onde o espaço para o acolhimento — do outro e de si — tornou-se escasso.
A mudança, por sua vez, é parte essencial da existência. Mudamos de lugar, de fase, de direção, de velocidade. Mudamos com o clima, com o tempo, com os ciclos do desenvolvimento humano. A transformação é natural, necessária e, muitas vezes, desejável. No entanto, cabe refletir: será que estamos mudando rápido demais? Será que essa aceleração não está nos afastando da nossa própria inteireza?
Quando nos deixamos levar por esse ritmo frenético, corremos o risco de nos desconectar das nossas necessidades mais básicas. A teoria da hierarquia das necessidades humanas, proposta por Abraham Maslow, nos lembra que essas dimensões vão desde as fisiológicas (como comer, dormir, respirar) até as de segurança, pertencimento, autoestima e autorrealização. Negligenciá-las é comprometer nossa saúde integral — física, emocional e relacional.
No campo do trabalho, essa sobrecarga se intensifica. Os(as) trabalhadores(as) enfrentam pressões constantes, que geram riscos psicossociais relevantes: excesso de demandas, comunicação truncada, isolamento no trabalho remoto, baixa autonomia e ausência de suporte institucional. Esses fatores podem desencadear transtornos mentais, fadiga crônica e Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho (DORT), comprometendo seriamente o bem-estar.
Diante desse cenário, torna-se urgente repensar os papéis que assumimos e as prioridades que estabelecemos ao longo do dia — trabalho, casamento, filhos(as), família, amigos(as), estudos, lazer. Como nos relacionamos com essas esferas e suas exigências? Será que temos abdicado de nossas próprias necessidades para atender exclusivamente às dos outros? E por quê? Estaria aí o desejo de obter amor, aprovação, evitar a culpa por pensar em si, ou mesmo o propósito de estar próximo de quem julgamos carente?
A psicologia humanista nos convida a olhar para essas questões com profundidade, autenticidade e compaixão. Carl Rogers, um dos principais nomes dessa abordagem, nos oferece uma reflexão potente: “Quando aceito a mim mesmo como sou, então posso mudar.” Essa frase revela o paradoxo transformador da aceitação — ao nos reconhecermos com honestidade e gentileza, abrimos espaço para a mudança genuína e sustentável.
Transfigurar-se, nesse sentido, é respeitar o próprio ritmo, escutar-se com profundidade e acolher-se com ternura. Que o compromisso com o outro não nos afaste do compromisso com nossa própria saúde e bem-estar. É nesse movimento que se torna possível oferecer presença verdadeira ao outro, promovendo encontros que favorecem o florescimento humano. Que possamos, portanto, nos transfigurar para melhor. Que a escuta seja um gesto de presença, e o acolhimento, uma prática de humanidade.